quinta-feira, 9 de junho de 2016

Doce Vingança - Parte 1/2

Texto: J. Blasco

Denver, ano de 1881. Burton, o xerife daquele cruento povoado esquecido do resto do país punha à força de pontapés o negro Moisés para fora do saloon. “Fora, saco de carvão!” berrava loucamente por todos os poros. Não o expulsava do saloon ante aos olhos submissos de toda a cidade por calote ou perturbação da ordem pública. Era pela cor da pele.
Chutou o negro ébrio titubeando até este cair na poeira vermelha da rua principal. Alguns caubóis, parados sobre a sombra dos alpendres dos comércios, gargalhavam-se da surra que Moisés levava. Não podiam tolerar um negro bebendo num bar de brancos.
De súbito, Moisés lançou-se sobre o xerife, enfurecido. “Vou rasgar-te em dois, xerife Burton!”. Mal alcançou a figura gorda de Burton quando dois gorilas impediram-no com socos no estômago. Moisés teve o tempo de tombar ao chão, retorcendo-se de dores atrozes.
Burton, enlouquecido pela afronta, atirou o negro ao bebedouro dos cavalos. Humilhou-o, imergindo sua cabeça na água torva, proferindo-lhe características racistas. A cidadela parou para assistir ao combate desigual. Cada qual, sob a segurança de seus alpendres, espiavam o xerife revolutear-se com o negro nos punhos.
Um afro-americano monumental, escultural, era Moisés; de corpo altivo, parrudo, braços firmes; grunhia ao chão poeirento. Não satisfazendo-se, Burton rasgou as calças encardidas de Moisés, deixando-o completamente nu defronte aos olhos já assustados da cidade. Apanhou o chicote e lanhou suas nádegas fortes com o fio cortante do azorrague. O sangue vermelho do negro escorreu-se vagaroso, contornando a voluptuosidade das suas curvas generosas.
Quando calaram-se as risadas que acompanhavam de perto os movimentos de tortura de Burton, o negro continuou ali, desacordado. Como um cão encolhido na rua, lá Moisés permaneceu por horas, bem onde o deixaram, ao lado do bebedouro, desnudo, até que foi retira-lo de lá um homem.
No dia seguinte, a nudez robusta de Moisés era o fatídico assunto nos saloons de Denver. Cada boca dava uma proporção diferente e fenomenal para seu pênis negro e descrevia sua versão exagerada da sucessão de acontecimentos. Todas, no entanto, exaltavam o xerife Burton com um grande homem da lei.
O tempo passou. O xerife tornou a cometer outras atrocidades cruentas contra outros cidadãos, talvez para fazer lembrar o seu embrutecimento e rudeza pondo assim ordem na casa. O negro desnudo fora enfim esquecido, mas seu anseio por vingança, jamais.
Num obscuro dia de Maio, após ter caído uma chuva diluviana, Denver encontrava-se sobre a lama. Burton, após o expediente, foi-se depressa para o saloon. Lá ficou entupindo-se de uísque e ouvindo estórias até sentir vontade de ir embora.
No caminho de casa, encontrou-se com um caubói que o esperava na penumbra discreta de um alpendre. Ambos seguiram para a casa do xerife, sempre a olhar em volta.
Pôs a chave na fechadura. Abriu a porta. A casa, costumeiramente, estava retida na escuridão. Entraram, o xerife e o homem que o seguira. Fechou a porta. Abraçaram-se eroticamente, arduamente.
A luz bruxuleante de um lampião aceso dava luz ao ambiente. O homem que acompanhara Burton era um rapaz lépido, de olhos claros e amedrontados. Louro, de cabelos ondulados sob o chapéu rústico. Sorriu, ao ver o sorriso malicioso do xerife.

Continua na próxima publicação.

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