sexta-feira, 22 de abril de 2016

Inverno Quente - Parte 2/2

Continuação da publicação anterior:

No alvorecer do dia seguinte, Elias acordou num quarto, com uma negra lhe limpando a testa com fronha embebida de água. Seu cu ainda estava em chamas e seu traseiro se doía das pancadas. Logo que se lembrou da noite anterior, apavorou-se:
― Onde estou? Que horas são?
― Calma, sinhôzinho Elias. ― disse a negra. O senhor está muito debilitado e precisa se manter em repouso.
― Repouso? Eu estou ótimo e...
Naquele momento, sem permitir que terminasse o argumento, Laila, a negra por quem era louco de amores, irrompeu no quarto com uma bacia de água morna nos braços. Assim que a viu, Elias se deitou. Interpelou-a:
― Laila! Que fazes aqui?
― Ora, Elias! Vim cuidar de ti! Dar o cu para oito homens numa só noite não deve ser fácil! ― riu-se, ironicamente.
― Quê? ― assustou-se Elias. Estás louca?
― Pare de fingir, Elias! Todos na fazenda já sabem sobre ontem. Tu, por vontade própria, cedeste o traseiro para sete escravos mais o sinhozinho Marcos se divertirem.
― Isso... é invenção... Não sei do que se trata!
― Sabes sim, Elias! Tu és um desviado.
― Pare! Não sou, Laila.
― Sim, tu és! Tu apostaras teu cu com Sagas? Tu devias saber que Sagas não tem um “pintinho” como o de Marcos, como o teu ou dos outros brancos daqui. É enorme, mas tu cedeste o traseiro porque quis. E não me venhas tentar desmentir! Ontem, quando tu nos foste entregue, passamos uma pomada no teu cu que estava inchado, vermelho e largo.
― Mas... eles disseram que não iam contar!
― Eles te enganaram. Tu és chacota agora. Até os filhos de Marlon já sabem. Tu foste um corajoso em virar as costas pra sete negros bem dotados, Elias; e tens sorte de estar vivo.
Após um minuto silenciado, o humilhado Elias descarrega toda sua ira na moça, explodindo em xingamentos que foram ouvidos por negros dentro e ao redor do quarto:
― Isso é uma mentira! Aqueles negros fedorentos disseram que não iam falar nada, foi só por isso que eu cedi pra todos eles! Não sou andrógino e sobrevivi porque eles são uma vergonha como negros; tem paus pequenos como os de uma bando de chineses! Minúsculos e finos, entendeste?
Depois dessas palavras, Elias e Laila não se encontraram mais. A moça se casou, tinha seus afazeres, um marido bem dotado e os patrões para se dedicar, enquanto que Elias seguia como a chacota da fazenda. Ás vezes este a espiava de longe, enquanto tomava banho, mas só. Nunca se aproximava. Tinha vergonha.
A neve começou enfim a cair. O tempo passou, mas Elias ainda era chacota entre os escravos machos da fazenda de Marlon, por isso andava sempre às ocultas. Numa noite, este, desesperado, tentou raptar a bela Laila e fugir com ela, mas quando invadiu seu quarto, encontrou apenas o marido negro de Laila que, impiedosamente, lhe atravessou na cama, lhe rasgou as vestes traseiras e lhe estuprou. “Isso é para aprender a não raptar senhoras, sinhôzinho Elias!”, disse o negro, enterrando seu pau grosso no orifício latejante do branco Elias que gemia e esperneava em vão. O episódio só reforçou a fama homossexual de Elias entre os peões.
Elias, cansado das frequentes humilhações, um dia de nevasca, enfiou-se bosque adentro e foi embora. Já longe das terras de Marlon o ex-peão achou uma gruta e abrigou-se nela. De tão exausto, não acendeu sequer uma fogueira para aquecer seu sono. Lá adormeceu. Congelou. Morreu.
Meses depois, numa busca, alguns escravos encontraram os restos mortais de Elias. Reconheceram suas vestes e só então lhe deram uma sepultura improvisada. A gruta foi batizada de “a boca de Elias”. Desde aquele dia, a prática homossexual entre os brancos e mulatos bem dotados da fazenda virou rito em memória do peão Elias.

Jesús Blasco, 18 de Fevereiro de 2016.

( Leia a primeira parte clicando aqui )

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